(i) nasceu em 1937 em Lamego;
(ii) foi para a Guiné, com a família, em 1952, ainda adolescente (com 15 anos);
(iii) assistiu à modernização e crescimento de Bissau, capital da Província desde 1943;
(iv) conheceu, entre outros futuros dirigentes e combatentes do PAIGC, Domingos Ramos, de que se vai tornar amigo, na recruta e depois no 1º Curso de Sargentos Milicianos [CSM], que se realizou na Guiné, em Bolama, em 1959;
(v) com o posto de fur mil, partiu, em 29 de outubro de 1963, para Angola, integrando num grupo de Oficiais, Sargento e Praças, do CTIG, a fim de frequentarem um curso de Comandos, no CI 16 na Quibala - Norte, e on se incluía o major inf Correia Diniz; alf mil Maurício Saraiva; alf mil Justino Godinho, 2º srgt Gil Roseira Dias (irmão do Mário), fur mil cav Artur Pereira Pires, fur mil cav António Vassalo Miranda, 1.º cabo at inf Abdulai Queta Jamanca e Sold. At. Inf.ª Adulai Jaló.
(vi) este grupo esteve na origem da criação, em julho de 1965, da Companhia de Comandos do CTIG (CCmds/CTIG), tendo sido nomeado seu comandante o cap art Nuno Rubim, substituído em 20 de fevereiro de 1966 pelo cap art Garcia Leandro;
(vii) em 1966, seguiu para Angola, onde prestou serviço, seguindo a carreira militar;
(x) depois de reformado dedicou-se à música: dotado de grande sensibilidade e talentos artísticos, é mais conhecido por M. Roseira Dias, no meio musical, é autor de inúmeros arranjos musicais de canções populares como a açoriana Olhos Negros, e tantas outras que por aí circulam em Portugal e no Brasil.
É muito vulgar e frequente tecerem-se comentários depreciativos à espingarda G3, quando comparada à AK 47. Em minha opinião, nada mais errado. Analisemos, à luz das características de cada uma e da sua utilização prática, os prós e contras verificados durante a guerra em que estivemos empenhados em África:
(i) Comprimento: G3 - 1020mm; AK47 - 870mm
Passemos então a comparar.
Se, por um lado, temos mais tiros para dar sem mudar o carregador, por outro lado esse mesmo facto leva-nos facilmente, por uma questão psicológica, a desperdiçar munições. E todos sabemos como o desperdício de munições era vulgar da nossa parte apesar de os carregadores da G3 serem de 20 cartuchos.
O usual era, infelizmente, “despejar à balda” sem saber para onde nem contra que alvo.
Porém, os principais motivos que me levam a preferir a G3 à AK47 (creio que a fama desta última é mais uma questão de moda) são as que a seguir vou referir ilustradas, dentro das possibilidades, com as gravuras acima publicadas.
Normalmente o combatente numa situação de contacto possível em qualquer lado e a qualquer momento leva geralmente a arma com um cartucho introduzido na câmara e em posição de segurança. Eu e o meu grupo tínhamos bala na câmara e arma em posição de fogo desde a saída à porta de armas do aquartelamento até ao regresso e nunca houve um único disparo acidental.
Quando dois combatentes se confrontam, o mais rápido e silencioso tem mais possibilidades de êxito e, nesse aspecto, a G3 tem uma enorme vantagem sobre a AK47. Talvez poucos se tivessem dado conta dos pequenos pormenores que muitas vezes são a diferença entre a vida e a morte.
Um caso concreto:
Vou por um trilho no meio do mato e surge-me de repente um guerrilheiro. Levo a arma em segurança e tenho rapidamente de a colocar em posição de fogo. Do outro lado o guerrilheiro terá de fazer o mesmo. Em qual das armas esta operação é mais rápida e fácil?
Se olharmos para as gravuras observamos que na G3, levando a arma em posição de combate, à altura da anca com a mão direita segurando o punho dedo no guarda mato pronto a deslizar para o gatilho, utilizando o polegar sem tirar a mão do punho com toda a facilidade e de forma silenciosa passo a patilha de segurança para a posição de fogo e disparo.
E o portador de AK47?
Suponhamos agora que o homem da G3 vê um guerrilheiro e não é por este detectado. A passagem da posição de segurança à posição de fogo, além de rápida, é silenciosa pois a patilha de segurança é leve a não faz qualquer ruído ao ser manobrada. O guerrilheiro não se apercebe de qualquer ruído suspeito e mais facilmente será surpreendido.
Outro caso concreto:
Todos certamente estaremos recordados de quantos vezes era necessário combinar o fogo com o movimento nas manobras de reacção a emboscadas ou na passagem de pontos sensíveis. Nessas ocasiões, em que fazíamos pequenos lanços em corrida para rapidamente atingirmos um abrigo para o qual nos teríamos de lançar de forma a ficarmos automaticamente em posição de podermos fazer fogo (a chamada queda na máscara), a G3, devido à sua configuração era de grande ajuda, pois, não tendo partes muito salientes em relação ao punho por onde a segurávamos, (o carregador está ao mesmo nível) permitia que de imediato disparássemos com relativa eficácia.
E a AK47?
(D) Defeitos
Quero aqui referir que ao longo dos muitos anos da minha vida militar, tanto em combate como em instrução ou nas carreiras de tiro, tive diversas armas G3 distribuídas e nunca nenhuma se encravou.
Nós tínhamos por hábito, como forma de prevenir este inconveniente, untarmos as mãos com óleo de limpeza de armamento, para esfregarmos as munições na altura de as introduzirmos nos carregadores. E resultou sempre bem.
São pequenos pormenores que deveriam ter sido ensinados na recruta mas, pelos vistos, nem sempre havia essa preocupação bem como muitas outras que foram, a meu ver, causa de algumas (muitas) mortes desnecessárias.
CONCLUSÃO
Mário Dias
[ Revisão / fixação de texto / negritos / título: LG]
Nota do editor L.G.:
Último poste da série > 14 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27919: Casos: a verdade sobre... (67): Kalashnikovmania - Parte II: Eu tinha 3 amores... (J. Casimiro Carvalho)




















